Página Inicial Página Inicial Crônicas Outros Textos Fotos Dicas Contato
Sobre a Autora DosVox - Download
Memórias de um poema cantado
Ana Almeida  -  31/07/2008 14:59
  Minha mãe é professora. Minha tia é professora. Praticamente todas as mulheres da minha família, do lado materno, cursaram magistério. Ou seja, nasci e cresci com controlados recursos financeiros, mas com uma bela estante cheia de livros para compensar. Eram os mais variados possíveis, na maioria velhos e empoeirados.  De todos eles, um sempre me chamava atenção. Tinha capa cor-de-rosa forte, quase que numa tonalidade de xarope groselha (esse muito apreciado nas quentes tardes da minha infância). Na capa estava escrito: "Os mais belos sonetos que o amor inspirou". Não tenho certeza do ano de publicação. Porém, lembro com clareza do que se tratava. Era uma seleção de sonetos escritos sobre a temática do amor. Recordo-me que havia poemas de vários autores, de várias nacionalidades, e que a obra era dividida pelo país de origem dos trabalhos. Tinham escritores alemães, africanos, espanhóis, japoneses... mas a maioria, sem dúvidas, era composta por portugueses.

   Dentre as mais de trezentas páginas amareladas, um dos sonetos deixava-me intrigada. Eu, com meus 12 anos deparei-me pela primeira vez com um soneto de Camões, que estava descrito exatamente assim:

Sonêto LXXXI
Camões

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente;
é um contentamento descontente;
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem-querer;
é solitário andar por entre a gente;
é um não contentar-se de contente;
é cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se prêso por vontade,
é servir a quem vence o vencedor,
é ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode o seu favor
nos mortais corações conformidade,
sendo a si tão contrário o mesmo amor?


   Logo que bati o olho naquelas linhas, indaguei: quem é esse Luís que copiou a música do Renato? Ora, o soneto era praticamente idêntico à letra da música. Salvo algumas frases no início e no meio da canção. Como poderia uma coisa dessas? Infelizmente, na época, não destinei muito tempo à pesquisa e elucidação dos fatos. Não tive tempo. Era muita bola para jogar, muita corda para pular, muita sapata para saltar.

   Somente anos depois vendo uma entrevista na televisão, recordei daquele fato curioso. A mãe do cantor falava sobre a vida e a obra do filho. Em certo ponto, questionada sobre a mais bela de todas as canções do já falecido compositor, ela respondeu sem muito pensar: Monte Castelo. Uma homenagem ao tio do músico que havia morrido na II Guerra Mundial, na Batalha de Monte Castelo, na Itália.

Monte Castelo
Renato Russo

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.

É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece.

O amor é o fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer.

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.

É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É um não contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrario a si é o mesmo amor.

Estou acordado e todos dormem todos dormem todos dormem
Agora vejo em parte. Mas então veremos face a face.

É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade.

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.


   Não sei por que demorei tantos anos para folhear novamente aquele livro de capa roída nos cantos. Talvez não tivesse sido necessário esperar tanto tempo para descobrir o que só naquele momento a mãe de Renato veio a público comentar. Que além de passagens da Bíblia, acredito que Coríntios XIII, no texto estava transcrito um dos mais belos poemas de Camões, que fala do amor e das contradições que envolvem esse confuso e nobre sentimento.

   É incrível como as palavras têm o poder de nos transportar no tempo e no espaço. Toda vez que leio o soneto, meu pensamento é remetido à música e, essa, lembra minha infância, meus 12 anos, uma época de pura ingenuidade, incapaz de entender um soneto tão profundo e um poeta tão importante como o português Luís Vaz de Camões. Ao mesmo passo que, toda vez que escuto a música, visualizo o texto de quatro estrofes e, conseqüentemente, minha meninice.

   Hoje, resolvi escrever sobre esse soneto porque escutei a canção no rádio. Porque essa música tem o poder de tocar muito fundo dentro de mim. Porque é a obra que mais nitidamente faz meu pensamento viajar de marcha ré. É sem dúvidas a mais marcante das minhas experiências de leitura poética. Assinala um tempo bom, uma época de paz, tranqüilidade, de tardes ensolaradas (deitada na cama com os pés para o alto) escutando repetidamente as mesmas melodias, Legião Urbana, Engenheiros do Havaí, Nenhum de Nós, Titãs, Skank, Raul Seixas, cadernos e livros misturados a farelos de bolachas pelo chão... E, sempre como acompanhamento, o inseparável copo de suco de groselha, claro, esse não poderia faltar: rosa, forte, e inesquecível como o livro de sonetos da estante da minha mãe.

---
Comentário: Esse texto foi feito em 2008, para a disciplina "Literaturas de Língua Portuguesa I", ministrada pelo Prof. Norberto Perkoski, do curso de Letras da Unisc.
Comentários
Bia
03/02/2011 14:53
muito bom essa matéria. o vocabulario da autora é simplesmente fantastico, e sua historia é parecida com a minha. me identifiquei muito com voce. adorei mesmo. ah, adoro o renato russo e sempre vai estar na nossa memória como um dos maiores artistas do Brasil. parabéns.
Nome:
E-mail:
Comentário:
500
Outros Textos |
Copyright© 2008. Todos os direitos reservados Gesoft Informática
X